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Luisa Brandelli inaugura sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica

Selecionada para integrar o programa de residências artísticas do Instituto Inclusartiz este ano, a gaúcha apresenta 11 obras inéditas na mostra, aberta ao público no dia 23 de julho

Com apenas 32 anos de idade, Luisa Brandelli vem caminhando a passos largos na cena da arte contemporânea brasileira. Além de estar entre os nomes selecionados para o prestigiado programa de residências artísticas do Instituto Inclusartiz em 2022, a artista gaúcha inaugurou no dia 23 de julho sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro. Intitulada “Algum lugar muito, muito selvagem”, a mostra ocupa o mezanino do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica até o dia 27 de agosto com um recorte de 13 obras – das quais 11 são inéditas – de sua produção mais recente.

“Algum lugar muito, muito selvagem” fica em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica até 27 de agosto / Foto: divulgação

“A minha pesquisa se dá na cultura de rua, na novela, na propaganda, nessa imagem de Brasil, como o da mulher gostosa, da paisagem paradisíaca e até da religião”, conta Luisa. “Eu trabalho muito mais com a evocação de uma ideia de uma imagem do que com a figuração de uma imagem de fato”.

“Algum lugar muito, muito selvagem” fica em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica até 27 de agosto / Foto: divulgação

Na nova exposição, com curadoria de Daniel Steegman Mangrané, Luisa dá prosseguimento à sua investigação com diferentes técnicas, materiais e mídias, incluindo fotos impressas em lona, esculturas, um bordado com miçangas, além de trabalhos com lã, guache, tinta de pintar chão, entre outros (leia abaixo o texto do curador sobre a mostra).

“Algum lugar muito, muito selvagem” fica em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica até 27 de agosto / Foto: divulgação

“O meu trabalho é muito processual, eu não tenho um projeto de início. O Daniel comentou que o meu trabalho, por fotos, parece vários Ready Made, uma coisa meio pré-fabricada, mas que ao serem vistas ao vivo percebe-se os erros e as imperfeições, porque fica mais claro o processo envolvido na produção”, explica. “Essa prática está se tornando cada vez mais evidente no meu trabalho, em que uma obra me dá a liberdade de fazer uma próxima completamente diferente”.

“Algum lugar muito, muito selvagem” fica em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica até 27 de agosto / Foto: divulgação

Da mesma forma que foi selecionada para a exposição por meio de um edital do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Luisa também conseguiu a vaga no programa de residências do Instituto Inclusartiz a partir de concorrência com outros candidatos que participaram da exposição “Hora Grande”, promovida dentro da edição deste ano da SP–Arte. A artista já começou a pensar no seu projeto de pesquisa de um mês, que se inicia em setembro no Centro Cultural Inclusartiz.

Luisa Brandelli ganhou uma vaga no programa de residências artísticas do Instituto Inclusartiz durante a SP–Arte deste ano. Foto: divulgação / SP–Arte

“Como já entreguei esses trabalhos que estão montados na exposição, estou com a cabeça agora na residência. Estou com a ideia de fazer um bordado e a partir dele pensar em outros trabalhos. E vamos ver o que a convivência com pessoas do meio, os encontros, essas relações afetivas, vão me levar a fazer. Não estou querendo forçar nada e ver o que acontece”, conclui.

Felipe Molitor, Frances Reynolds, Luisa Brandelli, Lucas Albuquerque e Fernanda Feitosa durante a SP–Arte 2022. Foto: divulgação / SP–Arte

Texto do curador Daniel Steegmann Mangrané

Tudo parece ser ou ser capaz de se transformar em corpo – e todo corpo em qualquer outro. O território vira pele e a pele território. A camuflagem ou as cores das penas estratégias de dissolução e sedução – pois que é a sedução, senão uma vontade de se dissolver um no outro, de liquidificar os corpos azeitados com óleo de carnaúba, protetor solar, verniz de deck?

Cabe um corpo liquidificado num balde? Que tamanho teria este balde? Na superfície dourada o olhar se reflete derretido de desejo, mas qual seria este desejo? Desejo de ser outro, de ser o outro, de ser outra coisa?

Ninguém sabe o que pode um corpo é a frase de Spinoza que Deleuze repete em seus escritos. Se um corpo não se define por sua pertencença a uma espécie, um gênero ou um ordem biológico, mas pelos afetos dos que é capaz, pelo grado de sua potência, pelos limites do território que consegue reclamar, então não se pode saber o que pode um corpo antes da experiência, antes da relação. Por descontado existem alguns encontros que podemos afirmar fatais -a ingestão de determinadas substâncias, choques particularmente violentos-, mas para o resto das possibilidades que o acaso nos oferece não podemos saber de antemão o que acontecerá.

Por isso, a orientação do trabalho é uma e única: a experimentação. E esta experimentação consiste em não ser imitativo, em não julgar, em não interpretar com as categorias gerais do que está certo ou está errado; é dizer: se trata de conseguir não reduzir a experiência àquilo que se nos dá como já conhecido. Como não sabemos o que pode nosso corpo – de quais afetos somos capazes, até onde alcança nosso território – temos que experimentar.

Questão de amor, não de juízo. Na composição de um corpo com outro, há devir. O devir é algo que acontece entre coisas que se encontram, e aquilo que acontece não é da ordem do reconhecimento nem do juízo, mas da captura e do roubo. Questão de amor, não de Juízo, o devir é um processo do desejo.

Barthes, na Metáfora do Olho nos explica que enquanto a metáfora se estrutura por uma necessidade vertical onde um sentido figurado superior se “impõe” ao sentido literal, mudando seu significado, a metonímia se estrutura de forma horizontal e um significado escoa no próximo num deslizamento lateral, sem hierarquia e sem -a priori- sentido para além de este próprio deslizamento, desta liquefação.

Mas não é por uma simples relação de proximidade que os significados se desplaçam: não há um significado fixo em nenhuma linguagem, mas “o incessante deslize do significado sob o significante” como disse Lacan. O sentido é o uso e nenhum significante escapa o jogo de deslizes que é a linguagem. No trabalho de Luisa Brandelli este deslize é político e literal.

Serviço

Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica
Rua Luís de Camões, Praça Tiradentes, 68
Centro – Rio de Janeiro

Visitação: 23 de julho a 27 de agosto, de segunda-feira a sábado, das 10h às 18h.
*Não há a necessidade de agendamento prévio.

Entrada gratuita.