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Centro Cultural Inclusartiz recebe ciclo de oficinas inspirado na obra de Tia Lúcia durante o mês de julho

Desenvolvido pelo educador Fernando Porto, Ateliê de Experimentação Artística tem como públicos prioritários os moradores da região portuária, estudantes da rede pública de ensino, artistas e profissionais da cultura

Inspirado na vida e obra da artista Tia Lúcia, o Ateliê de Experimentação Artística, desenvolvido pelo educador Fernando Porto, é um projeto destinado à realização de  formações continuadas sobre arte, educação, cultura e história do Rio de Janeiro, tendo como públicos prioritários os moradores da região portuária, estudantes da rede pública de ensino, artistas e profissionais da cultura, a partir de uma relação pautada pela participação e colaboração coletiva.

Em diálogo com questões presentes na exposição “Gamboa: nossos caminhos não se cruzaram por acaso”, em cartaz no Centro Cultural Inclusartiz até 31 de julho; no território da Gamboa e seu entorno; e na sociedade carioca como um todo, o Ateliê de Experimentação Artística promove a educação e a arte como práticas de experimentação e criação de ações que fomentem a troca de saberes e as mais diversas formas de gerar e compartilhar conhecimento. 

Obras da artista Tia Lúcia inspiram as atividades do Ateliê de Experimentação Artística. Foto: Wagner Kox

Suas ações buscam lidar com a diversidade dos públicos, por meio de atividades que tenham por princípio reconhecer e difundir os saberes locais, tradicionais e acadêmicos, estimular os aprendizados coletivos, criar possibilidades de descoberta e protagonismo, assim como aumentar a inclusão e o encontro de diferentes culturas. O Ateliê de Experimentação Artística é pautado pelos universos criativos que rondam a trajetória de Tia Lúcia que, como educadora, percebeu na arte uma das ferramentas eficazes de fortalecimento e construção das autonomias dos sujeitos em formação. 

Este programa de oficinas se faz em caráter laboratorial no mês de julho de 2022, com quatro encontros presenciais de duas horas cada, totalizando oito horas de participação e criação, nos quais iremos propor a experimentação e a criação de diversas materialidades e procedimentos realizados por Tia Lúcia na construção de seus trabalhos artísticos.

Os interessados devem se inscrever pelo link https://awure.eadplataforma.com/

Obras da artista Tia Lúcia inspiram as atividades do Ateliê de Experimentação Artística. Foto: Wagner Kox

Sinopses das atividades:

1. RECONSTRUINDO COISINHAS

Data: sábado, 16/07/2022

Horário: 14h às 16h

Faixa etária: Livre

Tia Lúcia era uma personalidade conhecida pelos moradores da região portuária. Educadora, contadora de histórias e andante, ela percorria os bairros a pé, pelas suas ruas e espaços, colhendo alguns objetos pelo caminho, que mais tarde seriam reinventados em seus trabalhos artísticos. “Reconstruindo coisinhas”, a primeira atividade do Ateliê de Experimentação Artística, propõe aos participantes seguir os passos de Tia Lúcia, construindo objetos, pinturas, esculturas e instalações por meio de pequenos materiais encontrados na rua, a partir de uma caminhada em grupo pela Praça da Harmonia, dialogando e colhendo as histórias do território.

2. PINTURA EM PERGAMINHOS

Data: quinta-feira, 21/07/2022

Horário: 14h às 16h

Faixa etária: Livre

Partindo dos rolos de pintura construídos e organizados por Tia Lúcia, esta segunda atividade propõe a construção de histórias em quadrinhos encadeados num grande pergaminho. O objetivo é criar, por meio da pintura e do desenho, uma construção de imagens para a história, refletindo sobre o cotidiano do bairro da Gamboa e de seu entorno.

3. QUAL É A SUA BANDEIRA?

Data: quinta-feira, 28/07/2022

Horário: 14h às 16h

Faixa etária: 14 anos

Se você pudesse criar a sua bandeira, quais cores, formatos, símbolos e palavras teriam? Ela seria hasteada ou levada como guia por um cortejo? Esta atividade propõe a reflexão e a construção de novas bandeiras, que não são apenas um simples pedaço de pano que pode ser rasgado e dependurado, mas também são um símbolo que reúne em seu conteúdo toda a representação histórica de um povo, suas convicções, lutas, riquezas e esperanças. 

4. QUEM CONTA FAZ DE CONTA

Data: sábado, 30/07/2022

Horário: 14h às 16h

Faixa etária: 14 anos

A atividade propõe experimentar e construir, como Tia Lúcia e tantas outras tias pretas da região portuária, fios de conta com cores, formas e tamanhos diferentes, nos quais cada cordão pode representar uma história, uma lembrança, alguém, um acontecimento ou somente combinações estéticas de cores favoritas, formatos e comprimentos. Também iremos ler passagens de contos e poemas de autoras e autores negros brasileiras para inspirar a montagens dessas contas repletas de histórias e valores afetivos.

Sobre Tia Lúcia

A baiana Lúcia Maria dos Santos tem seu nome cravejado na memória da Pequena África, na zona portuária do Rio de Janeiro, onde chegou aos 8 anos de idade e fez a sua passagem aos 76 anos, em 2018.  Por meio da musicalidade, Tia Lúcia usava os cantos de rodas de samba para transmitir tradições ancestrais, de maneira a fortalecer a herança africana da região, incentivando outros a compartilhá-las de geração em geração.

Homenagem a Tia Lúcia na exposição “Gamboa: nossos caminhos não se cruzaram por acaso”. Foto: Bandeira Tia Lúcia (2019), de Thiago Haule e Diego Zelota / Beatriz Gimenes.

Além disso, a professora, artista e artesã produzia alguns de seus quadros e objetos com materiais recicláveis, estimulando tais práticas a crianças e jovens por meio de oficinas gratuitas que buscavam a valorização da cultura popular. Ao observar suas obras, podemos notar a sua maneira generosa de retratar as vivências no Centro da cidade, o que a tornou referência para muitos outros artistas da região, visto que ela viveu e segue vivendo no território de maneira ancestral.

Sobre a exposição “Gamboa: nossos caminhos não se cruzaram por acaso”

Em cartaz entre 20 de maio e 31 de julho de 2022, no Centro Cultural Inclusartiz, a exposição “Gamboa: nossos caminhos não se cruzaram por acaso” apresenta cerca de 80 obras de 25 artistas e coletivos conectados afetivamente ao bairro da Gamboa, na região portuária do Rio de Janeiro, e seu entorno. 

Lucas Albuquerque, curador independente e Coordenador do Programa de Residências Artísticas do Instituto Inclusartiz, organização sem fins lucrativos à frente do centro cultural, assina a curadoria da mostra, cujo objetivo principal é promover e valorizar a produção artística local, bem como aproximar a comunidade ao espaço. Inspirado em um manuscrito de Tia Lúcia (1933-2018), pintora, escultora e moradora do Morro do Pinto (“Nossos caminhos não se cruzaram por acaso. Os maiores especialistas em sorrisos estão aqui”), o título da mostra faz eco ao desejo de abordar os cruzamentos entre artistas e produtores de cultura da região. Além de referência para o nome da exposição, Tia Lúcia está presente na coletiva com 17 trabalhos, sendo que cinco deles nunca foram exibidos para o público geral. 

Embora seja composta majoritariamente por obras de artistas contemporâneos, a seleção de pinturas, esculturas, fotografias e vídeo-performances também inclui trabalhos de personagens notáveis da história da arte brasileira, como Augusto Malta (1864-1957), Heitor dos Prazeres (1898 – 1966) e Rossini Perez (1932-2020). Multigeracional, a relação de artistas vivos compreende atuais e ex-residentes do bairro e nomes que concentram suas produções no local e adjacências: Bordô, Bruna Santos, Camila Ribeiro, Coletivo MP, Daniel Murgel, Diego Deus, Douglas Dobby, Gustavo Speridião, Laís Amaral, Leandro Barboza, Leandro ICE, Lolly, Mãe Celina de Xangô, Maurício Hora, Oficina do Prelo, Rainha F., Raphael Couto, Slam das Minas, Teresa Speridião, Thiago Haule e Yhuri Cruz.

Sobre Fernando Porto

Educador, pesquisador e artista, Fernando Porto realiza pesquisas em educação museal, críticas e teorias decoloniais em artes. Atualmente é educador pleno do MAR – Museu de Arte do Rio, onde desenvolve projetos e metodologias artístico-pedagógicas direcionadas ao público morador da região portuária e da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. Também realiza, como um dos coordenadores pedagógicos da Universidade das Quebradas, curso de extensão da UFRJ, ações que fomentam e promovem a criação de tecnologias de apoio à educação das relações étnico-raciais.

O educador Fernando Porto / Foto: divulgação

Começou a sua trajetória em coletivos transdisciplinares e núcleos de estudos acadêmicos em teatro, antropologia e performance, com foco em produções artísticas e intelectuais negras e ameríndias. Graduando em estética e teoria do teatro pela Unirio, também tem formações livres em produção e curadoria em artes visuais pela EAV do Parque Lage e Escola Sem Sítio, além de produção técnica de eventos culturais pelo IATEC – Instituto de Artes e Técnicas da Comunicação.

Recentemente publicou o texto “Essas outras personagens” como autor convidado pela Revista Palavra Solta; a crítica teatral “Pretinha”, para o festival de teatro Baixada em Cena na Revista Universitária Experimenta; o conto “Samba não é uma arma em punho” na coletânea “Contos para depois do ódio”, pela Editora Flup RJ; e o texto “Espaços pensantes, mas pouco atuantes. O racismo na universidade” pelo Coletivo Assalta, na edição 020 da Revista Omenelick 2ato.