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EXPOSIÇÃO PERMANENTE
Xadalu Tupã Jekupé
"Xadalu Tupã Jekupé: Tekoa Xy "A terra de Tupã""

9 Dec

-

27 Feb 2022

Nhemongarai: um corpo além do tempo

A produção de Xadalu Tupã Jekupé elabora pontes comunicacionais entre a história da sua comunidade Guarani Mbyá e os juruá (não-indígenas), transmitindo conhecimentos e memórias anteriormente circunscritos à oralidade. É visível a complexificação dos trabalhos elaborados pelo artista, que na medida em que desenvolve suas pesquisas, mergulha cada vez mais fundo nas cosmogonias da cultura Guarani Mbyá, propondo sua produção como um vetor de transmissão associado às urgências da existência dos povos autóctones no contexto do Brasil contemporâneo.

Os trabalhos aqui reunidos, localizam-se em uma encruzilhada ontológica, pois refletem um amálgama entre a descoberta de si, realizada a partir do desdobramento de sua ancestralidade Guarani, e a elaboração de trabalhos artísticos que extrapolam a subjetividade ao posicionar-se criticamente diante das políticas de apagamentos e catequização que marcam a história da nação, forjada à revelia de grande parte da população. Resultando de conversas em volta da fogueira com os Karai (sábios) de diversas comunidades, Xadalu Tupã Jekupé materializa as visões e inquietações, aproximando a cultura indígena e a cultura ocidental de modo a enfatizar os contrastes sociais e possíveis modos de associação. Podemos considerar sua poética como uma emenda, uma reconquista de linhagens perdidas, construindo assim, cosmologias e genealogias como proposta política de recuperação de uma consciência histórica expropriada. Suas obras revelam convites para uma compreensão ampliada do oreipyrã (narrativa sobre o surgimento do mundo) Guarani Mbyá.

Em Tekoa Xy “A terra de Tupã”, podemos perceber o conceito de raça como articulado pela escritora Rita Segato, um resultado da leitura contextualmente informada do corpo e da posição que ele ocupa na história. A curadora Sandra Benites alerta que atualmente, existem 305 etnias identificadas como indígenas no Brasil, mas essa identificação inclui somente indígenas aldeados, ignorando as existências que resistem nos centros urbanos. Necessitamos realizar investigações para além do mecanicismo classificatório, encarando a raça como uma marca de povos saqueados e agora em reemergência, ou seja, “um traço viajante e mutante que, apesar de seu caráter impreciso, poderia servir de instrumento para quebrar uma miscigenação politicamente branda e secretamente etnocida, hoje em processo de desconstrução”.

Em 2020, Xadalu Tupã Jekupé participou da programação que celebrou os sete anos do Museu de Arte do Rio – MAR, com o hasteamento da bandeira Área Indigena (2020), que articulou o território a partir das histórias silenciadas na região portuária, pensando a bandeira como um elemento visual contra-colonial. Se Sandra Benites afirma que “as cidades são cemitérios indígenas”, a prática de Xadalu Tupã Jekupé se desdobra como um processo poético de escavação entre temporalidades, que traz à superfície a visualidade dos espíritos que sempre estiveram lá. Existe uma cidade sobre nós “Nhe´Ery” O espírito Absoluto do espaço (2021), foi desenvolvida durante sua residência no Instituto Inclusartiz, encarando o espaço como um área de disputa, onde relatos criam corpos e alteraram a paisagem da urbe, um ambiente satisfação e auto-reconhecimento no passado, mas que na atualidade reflete a agonia e marginalidade dos povos indígenas. Esse trabalho expande as já enormes cabeças que sustentam a Catedral Metropolitana de Porto Alegre, anteriormente símbolo de triunfo da igreja católica sobre a cultura indígena, que refigurado evoca sua permanência viva, e jaz assentada sobre o lembrete/aviso: “existe uma cidade sobre nós”.

O vídeo Territórios flutuantes – Antes que se apague (2021) é criado a partir do retorno ao seu local de origem, à beira do Rio Ibirapuitã, no qual múltiplas temporalidades se chocam, entrecruzando os costumes da população Gaúcha e os regimes de apagamento da cultura indígena. Em um plano fixo, o vídeo evoca as memórias diante do fluxo das águas que correm na antiga terra indígena Araranguá. Se opondo ao apagamento da presença dos elementos ancestrais constitutivos das genealogias matrilineares, a imagem da bisavó é acompanhada pela oralidade de sua avó, que rememora episódios ocorridos nos anos 1940, vivenciados por sua trisavó.

Xadalu Tupã Jekupé realiza movimentos contra hegemônicos, que apontam para a necessidade de desmascarar a persistência da colônia no tempo presente, afirmando o significado político da mestiçagem e visando desestabilizar as estruturas da colonialidade. Esta possibilidade conceitual na obra do artista surge como uma estratégia de luta essencial no caminho da descolonização e considera seu corpo como indício de uma posição histórica compartilhada por muitas comunidades, um corpo entendido a partir de rastros de um percurso geopolítico. Nas palavras de Rita Segato:

Falar dessa raça generalizada em busca de sua memória, de uma identidade e de um nome para seus ancestrais, nos leva em direção à outra compreensão da mestiçagem, não mais aquela produzida pela elite branca/embranquecida e sempre colonizadora: não a miscigenação etnocida, estratégia perfeita para a expropriação da linhagem que enterrou a memória de quem-se-é, de onde-se-veio, se não como um lançamento do ser do índio, do ser do negro, até o futuro, nadando em sangue novo, alimentado por insumos de outras estirpes ou trajando novos contextos sociais, com novas inseminações de cultura, transitando pelas universidades, porém sem que se extravie o vetor de sua diferença e de sua memória como um tesouro da experiência acumulada no passado e um projeto para o futuro.

Considerando a ampliação das possibilidades de locução, as instituições museais vêm atravessando um importante processo de abordagem das estruturas coloniais que sustentam tais espaços, buscando considerar a relação entre objetos, seres humanos e não humanos, articulando assim mundos visíveis e invisíveis, na medida em que estes deixam revelar-se em determinados contextos. Processo que só poderia se efetivar com a incorporação de agentes que integrem tais comunidades, atuantes em todas as fases, desde a concepção à exibição, e não apenas com novas abordagens e interesses. A antropóloga Andrea Roca, ao refletir sobre as recentes experiências museográficas, aponta que “não se trata da incorporação, pela museologia dominante, dos conceitos, protocolos e dos processos originados nas sociedades indígenas, e sim da conquista da cena museológica pela agência indígena: são os índios que estão abordando os museus, e não o contrário”.

O direito historicamente associado à figura do Estado e da sua codificação escrita, delimita a concepção de outros modelos jurídicos, que não aqueles já consagrados pelo modelo ocidental. Esse processo complexifica a conquista de direitos pautados por outras formas de pensar e outros modos de viver. A educação e a transmissão de saberes, encontram nos trabalhos de Xadalu Tupã Jekupé, caminhos que se fortalecem mutuamente: I) Articulação entre a digitalização da vida e o impacto na manutenção dos saberes das comunidades Guarani Mbyá; II) A street art como ponto de convergência entre as barreiras socioeconômicas que definem o acesso às produções artísticas institucionalizadas e a reflexão das áreas indígenas invizibilizadas; III) A inserção de objetos que atendem aos critérios de valoração da produção contemporânea como máquinas do tempo para manutenção da cultura indígena, metamorfoseando espaços de apagamento em espaços de compartilhamento de memória coletiva. Esta exposição se orienta pelo Nhemongarai (batismo do nhe’e, espírito), uma cerimônia onde se revela a cidade celestial de origem das almas, e a missão aqui na terra, a qual se busca cumprir antes do retorno à origem, resguardando a essência da sabedoria e das ancestralidades do povo Guarani.

Realizado na aldeia Koenju, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, o documentário “Bicicletas de Nhanderú” (2011), tem a seguinte fala acerca dos registros de criação da casa de Reza: “Pode parecer que fizemos tudo isso para um filme, mas não é bem assim”, o que nos leva a pensar em Tekoa Xy “A terra de Tupã”, pode parecer que os trabalhos foram feitos para exposição, mas também não é bem assim.

por Aldones Nino

Nhemongarai: peteim tete imara he´yn va´e

Xadalu Tupã Jekupé mba´eapo ma pontes comunicacionais o tekoá história ha´e juruá kuery reve ojapo, omboaxa mba´ekuaa ha´e ymã guare ayu rupi rive omboaxa va´e kue. Ojekuaa porã kova´e artista imba´eapo complexidade oguerekoa, guembiapo ojapo ouvy aja, oike ve ouvy mbyá kuery reko py, omba´eapo gui ojapo eravy peteim mba´emo ombojekuaa va´e rami agyn jypy ikuai va´e kue apy Brasil py.

Ko mba´eapo kuery ijaty va´e ma, oim heta teko regua mbyte py, ojekuaa heta mba´e ojejou va´e kue ojegui ae, ojejapo va´e kue ngueko mbya regua oikuaa agui, ha´e kova´e mba´eapo artístico ma oaxa ve ju peteim teko re ijayua, ijayu avi heta va´e kuery rovai joepya rupi politica nhanembogue xe va´e ha´e juruá reko py nhanembo´e xe va´e rovai o marca va´e ko nação história, ojapo va´e kue amboae kuery ary. Kova´e ma oxen tataypy py karai kuery reve ijayu ague heta tekoá rupi, Xadalu Tupã Jekupé ombojekuaa mba´e rexa´an ha´e ijayua, omavae indígena kuery reko juruá kuery reko re, ombojekuaa heko joo rami he´yn a ha´e mba´eixa vy joe omoiru rã. Nha considera rã i poética peteim joapy rami, mba´e mo nhamokanhy va´e kue jaru a rami ju, peixa vy jajapo ju, teko regua ha´e genealogias regua proposta politica ju jaru aguã nhandereko heta va´e kuery ogueraa va´e kue. Imba´eapo ma oexauka pavê pe oenoin a rami otende aguã oreypy rã mbya kuery regua re.

Exposição rera re, jaexa porã eravy conceito heta teko regua, Rita Segaro escritora omobe´ua rami, peteim resultado oxen va´e kue leitura contextualizada onhemombe´u va´e kue peteim tete ha´e mamo pa oin agui história py. Curadora Sandra Benites ma ojepy´a py, oiko 305 etnias apy Brasil py, va´e ri kova´e kuery ma tekoá py ikuai va´e kuery rive, ndoje kuai ju tetã py ikuai va´e kuery. Oata ojejapo investigação mecanismo classificatório re anho he´yn, oexa aguã ko heta heko va´e kuery re imonda pa ague ha´e oiko nhepyrun ju ramo, ha´e rami vy, “ peteim traço opa rupi oiko va´e ha´e joo rami he´yn he´yn oiko va´e, caráter impreciso teim, ha´eve peteim mba´emo omopen aguã miscigenação politicamente branda ha´e mbegue rupi jojuka va´e, agyn processo ombovaipa ma eravy”.

2020 re, Xadalú Tupã Jekupé o participa programação oguerovy´aa Museu De Arte do Rio- MAR peteim po mokoim ara pyau oupitya, oupi bandeira Área Indígena va´e (2020), o articula território história omokyririn va´e kue gui região portuária py, bandeira onhe pensa jaexa aguã heta va´e kuery rovai rami. Sandra Benites omombe´u ramo “tetã ma indígena kuery ojaty ague”, Xadalú ojapo va´e ma peteim processo poético rami ju ojo´o va´e temporalidades, ogueru va´e superfície py nhe´e kuery jaexa aguã, ha´e py ikuai aema va´ekue. Oiko peteim tetã nhande ary.

“Nhe´e ry” nhe´e oiko ete va´e apy (2021), kova´e ma ojapo Instituto Inclusartiz py oin jave, oexa espaço área de disputa rami, ayu ojapo eravy tete ha´e oguerova paisagem urbe py gua, peteim ambiente de satisfação rami ha´e auto-reconhecimento ymã guare rami, agyn reve ojekuaa jepy´a py ha´e povos indígenas o marginaliza a. kova´e mba´eapo ma o expandi heta akã Catedral Metropolitana de Porto Alegre py gua ojoko, ojekuaa va´e kue igreja heta va´e kuery povos indígenas gui gueko iporã ve a rami, o refigura ramo oenoin opyta aguã, ha´evy omombe´u nhanema´endu´a aguã: “oiko peteim tetã nhande ary”.

Vídeo Territorios flutuantes- antes que se apague (2021), ojapo oiko ypy ague py ju ojevy apy, yyakã Ibirapuitã, heta temporalidades nhovaixin apy, gaúcho kuery reko joaxa xa apy ha´e regime ombogue xe va´e indígenas kuery reko.Peteim plano fixo py, vídeo oenoin ymã guare yy oxyry aja, yma indígenas kuery rekoá ague py. Oo ombogue xe va´e kuery rovai elementos ancestrais constitutivos das genealogias matrilineares, xejaryi guaxu´i ra´angaa ojekuaa xejaryi ijayua re, ima´endu´a vy 1940 guare re, ijaryi guaxu´i oiko ague.

Xadalú Tupã Jekupé ma ojapo movimentos heta va´e kuery rovai, oexauka aguã heta va´e kuery nhanembo´e xea gueko rupi agyn reve, oexauka aguã significado politico oje´a va´e kuery regua ha´e omongeko rei aguã heta va´e kuery pe. Kova´e possibilidade conceitual artista mba´eapo pyma oiko peteim estratégia de luta rami heta va´e kuery rovai ha´e o considera hete peteim indicio rami posição histórica pavê tekoá ijayua rami, peteim tete onhetende rastro percurso geopolítico rami. Rita Segato ayu py ma:

Nhandeayu koo oje´a kue ima´endu´a ogueru ju aguã gueko kue, peteim identidade ha´e peteim terá guamoin kuery jypy guare pe, nhanderaa amboae henda rami ju nhatende aguã oje´a va´e kuery regua, juruá kuery ijayua rami ve he´yn juma: oje´a kue ojuka pa aguã rami he´yn, kova´e rupi ijayu vy ojaty pa py nhande reko kue va´e rami he´yn, mamo gui pa jaju ague, nhande mbo´e xe rive py mba´eixa pa nhandereko py jaiko rã, kamba´i reko kue, tenonde ve rã, tuguy pyau rupi oiko, omongaru va´e kue mba´emo re ha´e amboae kuery teko regua gui o xino katu ojapo amboae teko rupi ju oiko aguã, amboae teko ju onhotyn eravy, universidade mbyte rupi oikoa, va´e ri joo rami he´yn are imonda vy he´yn ju ha´e heko kue re, peteim mba´e mo iporã ete va´e oiko ague omono´o ha´e peteim projeto tenonde ve rã.

O considera heta henda rupi omombe´u aguã ha´e oexauka aguã, instituições museais ma oaxa eravy peteim processo importante de abordagem estruturas coloniais regua opa henda rupi oikoa, oeka mba´emo joe omoirun aguã, tete´i kuery ha´e nhe´e kuery, o articula jaexa va´e kuery ha´e jaexa va´e he´yn kuery, ha´e kuery ojexauka ouvy aja opa henda rupi. Kova´e processo ma ojeapo ha´e javi ve tekoá py gua kuery joupi oiko ramo, ha´e javi ve henda rupi oiko, onhepyrun ypy´i agui ate ojekuaa pe ve, va´e ri abordagem pyau rami he´yn ha´e interesse rami he´yn. Antropóloga Andrea Roka, onheporandu vy experiencias museográficas pyau re, oexauka “ nda´eiko nhamoin ve aguã, museologia omanda ve va´e re, conceito re, protocolos ha´e processos oiko va´e kue indígenas kuery apy, va´e ri ojeupity va´e kue museologia py indígenas kuery re: indígenas kuery o aborda museo kuery, nda´ei heta va´e kuery” .

Direito historicamente estado regua ma ipara va´e ma, omombe´u concepção jurídica regua, juruá kuery omboete ve va´e. kova´e processo ma o complexifica direito ojeupity va´e kue amboae kuery rami o pensa va´e rami ha´e amboae rami heko va´e kuery. Nhembo´e ha´e mba´eixa pa omboaxaa mba´ekuaa, ojou Xadalú mba´eapo re , peteim jeguata nhomombaraete va´e jovai gui: I) Articulação ombopara aguã teko regua ha´e mba´eixa pa o impacta mbyá reko omoingo ve aguã tekoá rupi; II) street art peteim ponto convergência rami barreiras socioeconômicas re o defini va´e acesso ovaen aguã produções artísticas institucionalizadas re ha´e onheporandu aguã heta henda onhomi rei va´e; III) omoim aguã mba´emo o atende va´e critérios o valoriza va´e mba´eapo agyn aguã mba´e mo omoin porã va´e indígenas kuery reko, amboae rami ju ojapo va´e heta henda ombogue xea va´e kue pavê mba´e rami ju ojapo. Kova´e exposição ojekuaa Nhemongarai re, kova´e py ma onhemombe´u mamo gui pa ou nhe´e kuery, mba´e rã pa ou yvy re, ha´e mba´e pa ojapo rã ojevy he´yn re guetã re, omoiporã peixa vy mamo gui pa mbyá kuery mba´e rexa´ã ou.

Kova´e ojeapo Tekoá Ko´en ju py, São Miguel Das Missoes py, Rio Grande Do Sul py, documentário ma “Bicicletas Nhanderú mba´e” (2011), omombe´u peixa opy mba´eapo regua: “ Rojapo filme py guarã rive, va´e ri ha´e rami he´yn ae ri”, kova´e oreraa kova´e exposição rera ro pensa aguã, kova´e exposição guarã rive merami romba´eapo, va´e ri any ae va´eri.

Aldones Nino ombopara va´ekue

Tradução do texto curatorial em Guarani
por Laercio Karai

Xadalu Tupã Jekupé – a arte do enviado de Tupã

A trajetória de Xadalu Tupã Jekupé é singular. Ele nunca reivindicou ser guarani por não falar a língua, que constitui a identidade cultural. Ele diz ser mestiço. Sua mãe Maria Catarina é negra. Avalizando seu pertencimento, o cacique Vherá Tukumbo da aldeia Tekoá Anhetenguá dele cobrou aprender o guarani, pois já era “um dos nossos”. A tarefa ética de sua arte é produzir visibilidade dos Guarani Mbyá. Aos 102 anos, o cacique Karai Tataendy Ocã da aldeia Tekoá Guyraitapu Pygua disse a Xadalu que chegara a hora do seu Nhemongarai (ritual de nomeação) e revelou seu nome: Xadalu Tupã Jekupé (Xadalu, o enviado de Tupã), um aval de sua ação em prol do povo Guarani Mbyá.

“Não existe aldeia ao redor de Alegrete onde nasci, foram todas arrasadas.” Em 1996, sua família migrou para Porto Alegre. “Fomos parar na periferia, a Vila do Funil” catando latinhas para sobreviver. “As vassouradas nas ruas de Porto Alegre, no primeiro emprego como gari, me mostraram um mundo de preconceito, desigual e desleal, mas tudo isso foi bom para fortalecer meu aprendizado.” Xadalu produziu fotos sobre chapa de raio X de gente guarani que porta um pequeno animal seu protetor. Esses Seres invisíveis evidenciam a subjetividade historicamente obliterada. Numa vez, Xadalu colou 1.000 adesivos com a cabeça de um curumim por Porto Alegre para expor a difícil integração na metrópole. “Em pouco tempo já estava íntimo das ruas e mal sabia que nunca mais iria conseguir viver sem elas. Sinto tanto a periferia quanto a rua como a extensão do meu corpo.”

Os territórios guarani demarcados vivem grande penúria. A presença dos Guarani Mbyá no centro de Porto Alegre sofre hostilidade de comerciantes porque eles “estragam o ambiente”. Em 2005, Xadalu imprimiu o cartaz ÁREA INDÍGENA. Jubilosos, os guarani entenderam que era seu espaço de trabalho; os comerciantes sentiram-se ameaçados. Este projeto é uma estratégia antidesterritoriação pelo reconhecimento da Tekoha.

A arte de Xadalu Tupã Jekupé se arma como diagrama de alteridade. Esse modelo de arte provedora não usurpa a mais valia simbólica do Outro, em geral um excluído, mas lhe oferece escuta. Em sua obra, Xadalu Tupã Jekupé substituiu a alienação do Outro por assumi-lo como sujeito moral e econômico da arte. São seus diagramas de alteridade: a construção de banheiros com água quente na aldeia Pindo Poty em Porto Alegre; o reflorestamento de terras com Kurupy para produzir madeira usada no artesanato e a oferta de cestas básicas para a aldeia Tekoa Yjere, isolada pela milícia a serviço da especulação imobiliária (ver Invasão colonial – meu corpo, nosso território). Xadalu Tupã Jekupé não fica à espera por mudanças na sociedade, mas agencia sua potência para agir na escala individual – não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir à onipotência. Na expectativa do diálogo do sensível e do racional com o público, seus riscos movem sua pulsão de vida na rota de um contrato social solidário da arte.

Paulo Herkenhoff