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Abertura do projeto “Interseções – diálogos entre a arte contemporânea e a literatura” reúne centenas de pessoas

Realizado no dia 23 de março, evento contou ainda com mesa de conversa com os dois artistas que integram a iniciativa – Dalton Paula e Márcia Falcão –, mediada pela pesquisadora Keyna Elison; além do lançamento do livro “Dalton Paula: O sequestrador de almas

No último dia 23 de março, o Centro Cultural Inclusartiz recebeu um público de centenas de pessoas para abertura do projeto Interseções – diálogos entre a arte contemporânea e a literatura. Sob a curadoria de Victor Gorgulho, Curador-chefe da instituição, a iniciativa apresentou em sua primeira edição exposições individuais de dois artistas visuais cujas produções dialogam não apenas com o campo literário, como também possuem inúmeros pontos de interseção e conexão entre si: A abertura dos olhos, de Dalton Paula, na primeira sala do espaço expositivo, e Pai Contra Mãe, de Márcia Falcão, que ocupa a sala seguinte.

Abertura das exposições do projeto Interseções – diálogos entre a arte contemporânea e a literatura / Foto: Beatriz Gimenes

Na ocasião da abertura, também aconteceu o lançamento do livro Dalton Paula: O sequestrador de almas, publicado pela Editora Cobogó, que reúne obras do artista brasiliense acompanhadas de textos da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz sobre sua produção e processos de trabalho. Para marcar o lançamento, foi realizada uma mesa de conversa entre Dalton Paula e Márcia Falcão, mediada pela curadora Keyna Eleison.

Dalton Paula, Keyna Elison e Márcia Falcão / Foto: Beatriz Gimenes

A abertura dos olhos reúne alguns dos primeiros experimentos artísticos de Dalton Paula, em um momento de sua trajetória em que a foto-performance e o uso do vídeo atravessavam profundamente sua prática, realizando atos performáticos ora para a câmera estática ora para fins audiovisuais. Dentre as obras expostas, estão algumas das primeiras incursões do artista nestes campos, ainda distante de produzir no campo da pintura, por exemplo – seja em tela ou em suportes como livros ou alguidares, pratos e vasos de barro comumente empregados em cerimônias religiosas do candomblé, por exemplo, além de sua funcionalidade cotidiana, na forma de pratos para a alimentação.

Nestes trabalhos, já distantes da produção atual do artista, podemos testemunhar o peculiar momento em que Dalton retratava o seu próprio corpo – ou o corpo negro, de um modo geral – com seus rostos e olhos usualmente vendados, cerrados ou mesmo cobertos por algum objeto ou aparato. Um segundo grupo de obras – três pinturas oriundas de sua famosa série “retratos brasileiros, em que pinta o rosto de lideranças negras históricas do Brasil – nos revelam a abertura dos olhos destas personagens, cujas memórias foram apagadas pela historiografia tradicional e são, hoje, reescritas na delicada e potente obra do artista.

Dalton Paula abriu sua exposição individual “A abertura dos olhos” e lançou o livro “Dalton Paula: O sequestrador de almas” / Foto: Beatriz Gimenes

Em outra sala, é apresentado pela primeira vez o conjunto completo das pinturas produzidas pela artista carioca Márcia Falcão especialmente para a nova edição do conto “Pai Contra Mãe”, de Machado de Assis, recém-publicado também pela Editora Cobogó. Escrita em 1906, a obra, uma das mais brilhantes do autor, faz um duro retrato da sociedade brasileira de sua época. Ao apresentar o personagem Cândido Neves, que “cedeu à pobreza quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos”, Machado de Assis expõe com crueza a miséria e a violência vivida por negros e pobres no Brasil.

Para o jornalista Tiago Rogero, que assina um texto na publicação, as pinturas de Márcia Falcão destacam a “assertividade contra a barbárie” do texto original e “abrilhantam esta edição”. Seu estilo figurativo e expressivo, carregado de um olhar combativo às desigualdades sociais e de gênero, pontua a leitura com imagens intensas que reforçam a conexão entre o conto e a contemporaneidade. Afinal, Machado deflagra violências que persistem em pleno século XXI.

Exposição “Pai Contra Mãe”, de Márcia Falcão / Foto: Beatriz Gimenes

SOBRE O PROJETO

O projeto Interseções – diálogos entre a arte contemporânea e a literatura reforça a vocação interdisciplinar que atravessa as diversas atividades do Instituto Inclusartiz. Desde a sua inauguração definitiva, no último ano, o centro cultural vem desenvolvendo um programa multidisciplinar e de natureza híbrida, reunindo desde seu tradicional Programa de Residência Artística e Pesquisa – em curso desde 2014 – até uma programação expositiva que enaltece tal caráter tentacular das iniciativas do instituto.

“Do casarão à Praça da Harmonia, de sua sede no Rio de Janeiro até outras tantas cidades mundo afora, o Inclusartiz segue a carregar, em sua essência, um latente desejo de fomentar a cultura, não apenas no circuito da arte contemporânea mas, para muito além, busca alcançar territórios de fricção e aproximação entre as artes visuais e outras linguagens, como o teatro, a música, a dança e, no presente projeto, a literatura”, conta Victor Gorgulho.

Exposição “Pai Contra Mãe”, de Márcia Falcão / Foto: Beatriz Gimenes

SOBRE OS ARTISTAS

Dalton Paula

Dalton Paula nasceu em Brasília, em 1982. Vive e trabalha em Goiânia. Em sua prática artística, emprega pintura, performance e instalações e, por meio dessas diversas linguagens, tece relações entre imagem e poder. Em seu repertório sígnico, a figura central é o corpo negro em diáspora, seus ritos e rituais. Destacam-se, em sua produção, pinturas em larga e pequena escala sobre diferentes suportes e também seu interesse contínuo pelos retratos, que constituem uma proposta de revisão da historiografia oficial. As pessoas retratadas são figuras históricas ligadas à diáspora africana, e muitas tiveram sua imagem e atuação apagadas. Nas instalações, Dalton desenvolve essa linha de investigação acerca do Atlântico Negro e sua rica linguagem simbólica.

É bacharel em artes visuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e seu trabalho integra coleções importantes, como a do Museum of Modern Art (MoMA), de Nova York; da Pinacoteca do Estado de São Paulo; e do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Seu trabalho foi exibido na 32ª Bienal de São Paulo (2016), com curadoria de Jochen Volz, e na Trienal do New Museum (Nova York, 2018), com curadoria de Gary Carrion-Murayari e Alex Gartenfeld, além de figurar entre outras exposições coletivas. Apresentou em Nova York a individual Dalton Paula: a kidnapper of souls (2020) na galeria Alexander and Bonin. Dalton inaugurou o programa de exposições da Sé galeria com a exposição e um terremoto sereno e imperceptível arrasou a cidade… (2014) e realizou as exposições individuais Amansa-Senhor (2015) e Dalton Paula: entre a prosa e a poesia (2019). É representado pela Sé galeria, São Paulo, e Alexander and Bonin, Nova York.

Márcia Falcão

Márcia Falcão nasceu no Rio de Janeiro, em 1985, foi criada no bairro de Irajá e vive e trabalha no subúrbio carioca. Partindo da própria experiência, as pinturas figurativas da artista apresentam expressivas representações do corpo feminino, sublinhando a complexidade do contexto social em que este se encontra inserido, atravessado por uma paisagem dubiamente bela e violenta. O feminino, a maternidade, os padrões de beleza e a violência de gênero são temas recorrentes que perpassam suas telas, marcadas pelo gesto e pela fisicalidade. Em 2022, a artista apresentou sua primeira exposição individual em São Paulo, na Fortes D’Aloia & Gabriel, um desdobramento da mostra ocorrida na Carpintaria, no Rio de Janeiro, em 2021. Entre suas principais exposições coletivas destacam-se: Parábola do Progresso (2022), Sesc Pompeia, São Paulo; MAR + Enciclopédia Negra (2022), Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro; Crônicas Cariocas (2021), Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro; Engraved into the Body (2021), Tanya Bonakdar Gallery, Nova York, entre outras.

SERVIÇO

Projeto Interseções – diálogos entre a arte contemporânea e a literatura
Visitação: terça-feira a domingo,  das 11h às 18h, até 23 de abril
Centro Cultural Inclusartiz — Rua Sacadura Cabral, 333, Gamboa.
Entrada gratuita